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sábado, 28 de abril de 2012

2012: O Ano da Energia Sustentável


SUSTENTABILIDADE

Energia eólica cresce no Brasil impulsionada pela crise internacional. Por Fernanda Dias


As Nações Unidas elegeu 2012 O Ano da Energia Sustentável Para Todos. No Brasil, a bola da vez é a energia eólica, que desde 2010 vem ampliando seu peso na matriz energética graças em boa parte ao investimento de grupos estrangeiros que aportaram no país após a crise na Europa e nos EUA. A meta do Governo Federal é mais do que duplicar a participação desse tipo de fonte dos atuais 1,1% para 2,3% até o fim do ano. Parece pouco, mas é um grande avanço pela rapidez da evolução. A energia eólica começou a ser utilizada no país em 2004, e a perspectiva do Ministério de Minas e Energia é que até 2020 ela responda por 6,7% do total produzido.
Para o engenheiro mecânico Everaldo Feitosa, vice-presidente da Associação Mundial de Energia Eólica e presidente da Eólica Tecnologia, a perspectiva do governo ainda é tímida. Ele acredita que até 2020, a energia eólica possa representar 10% da matriz: “A energia eólica é hoje a fonte mais barata no Brasil. Não tem sentido a contratação de outra mais cara, o que geraria ônus para a população, por isso a tendência é a contratação desse tipo de fonte limpa”.
Feitosa ressalta que uma conjunção de fatores naturais e econômicos tem estimulado o crescimento da participação da energia eólica no Brasil. O país, lembra ele, tem excelentes jazidas de vento e complementaridade entre o regime de vento e de água: os meses de secas nos rios são os que têm os melhores ventos. “Esses dois fatores são presentes divinos que nós tivemos”, ressalta.
As jazidas de vento, de acordo com Feitosa, estão concentradas basicamente em cerca de 70% nos estados do Nordeste e 30% no Sul. Mas, como o sistema brasileiro é integrado, uma central eólica contribui para a geração de energia para todo o país. A chefe do Laboratório de Energia Eólica da Faculdade de Engenharia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Mila Avelino, explica que a implantação dos parques eólicos apresenta vantagens com relação à distribuição de energia: “A região costeira, além da vantagem de estar mais próxima dos centros de consumo e dos fornecedores de equipamentos, é favorecida, em termos de logística de distribuição de energia, pela infraestrutura disponível”.
Além da contribuição da natureza, a economia também deu uma força para que o Brasil passasse a investir mais na energia eólica: câmbio favorável, incentivos fiscais e a crise internacional foram fatores que ajudaram a estimular o mercado de energias renováveis, que há dez anos buscava decolar no país.
“Todo mundo falava que energia eólica era cara. Com a crise financeira no exterior, os custos de equipamentos diminuíram muito, principalmente o de turbinas eólicas. Assim, foi possível fazer com que a energia eólica competisse com todas as outras matrizes em termos de custo de geração de energia. E sem qualquer subsídio. Até mesmo em nível mundial, o preço da energia eólica no Brasil é o menor do planeta: cerca de R$ 100 por megawatts/hora (MWh)”, ressalta Feitosa.
Atualmente, existem cerca de 5.300 MW (megawatts) em projetos eólicos autorizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Mila acredita que a instalação, nos próximos anos, de cerca de 7 GW (gigawatts) de potência nova já contratada, aumente ainda mais o interesse de fabricantes e representantes de empresas estrangeiras especializadas em energia eólica em investir no Brasil: “Em uma década, temos potencial para virmos a ser o principal mercado de energia eólica da América Latina, com cerca de 30 GW de capacidade instalada”.
No início do mês, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou financiamento de R$ 389 milhões para a construção de cinco parques eólicos na região Nordeste: quatro no Rio Grande do Norte e um na Bahia. Os projetos foram vencedores do Leilão de Fontes Alternativas de 2010 e integram o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Segundo o BNDES, os investimentos do país em energia eólica atingiram, no ano passado, R$ 5,1 bilhões, sendo R$ 3,4 bilhões de financiamentos do banco.
A exigência do BNDES, para aprovar um financiamento, de que 60% dos materiais sejam fabricados no Brasil forçou empresas estrangeiras fabricantes de turbinas eólicas a instalarem indústrias no país, o que têm promovido também um desenvolvimento industrial e tecnológico.
“Os países que mais fazem promoção de energia limpa são os mais poluentes. Na Alemanha, por exemplo, 60% da matriz é carvão, já na Espanha 65% são combustíveis fosseis. Existiu na ultima década muita propaganda, mas todos têm uma matriz muito suja. O único país altamente limpo era, foi e será o Brasil”, aposta Feitosa.

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Energia eólica vai produzir mais que Belo Monte até 2013

Amazonia.org.br
De acordo com Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), os 141 novos projetos no setor da energia eólica que serão investidos no Brasil em dois anos proporcionarão um incremento de 4.343 MW, superior aos cerca de 4.500 MW previstos para a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará.  As informações são do jornal Folha de S. Paulo.
Dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica) revelam que, até 2013, serão investidos no país R$ 25 bilhões em 141 projetos do setor, espalhados pelos estados de Ceará, Rio Grande do Norte, Sergipe, Bahia e Rio Grande do Sul.
Atualmente, a capacidade de geração de energia eólica no Brasil é de 928,9 MW.  Segundo o presidente da EPE, as fontes renováveis de energia representam, hoje, aproximadamente 8% da eletricidade produzida no país.  Em dez anos, devem chegar a 14%.  Somente a CPFL Energias Renováveis está investindo R$ 5,8 bilhões no setor.  Já a Renova Energia planeja aplicar R$ 1,2 bilhão em vários projetos, principalmente parques eólicos.
(Amazonia.org.br)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Economia Solidária: Outra economia acontece

Economia Solidária é uma forma diferente de trabalhar, produzir, comercializar e consumir. É o conjunto de atividades econômicas de produção, distribuição, consumo, poupança e crédito, organizadas e realizadas solidariamente de forma coletiva e auto-gestionária.
Neste trabalho coletivo, os próprios trabalhadores(as) participam de todo o processo de Gestão e Produção, ou seja, do empreendimento econômico solidário – desde o planejamento estratégico, até a produção e a comercialização, compartilhando tarefas, idéias, decisões e dividindo a renda de forma igualitária.
Dois pilares básicos desta economia baseada na sustentabilidade são a cooperação e a solidariedade.
Cooperação
Ao separarmos a palavra Cooperação, teremos o seguinte: “com” (com alguém, coletivamente) + “operar” (trabalhar, fazer) = Cooperar. Cooperação, portanto, é quando todos ajudam a encontrar saídas para os problemas, trocando idéias e experiências; acontece quando um grupo contribui com suas energias para a realização de tarefas de interesse comum.
A cooperação substitui a dominação e faz aparecer a responsabilidade e o equilíbrio. Quando há cooperação num trabalho coletivo, significa que há objetivos comuns, união de esforços, de habilidades e capacidades – mas também de respeito aos limites de cada pessoa; há partilha dos resultados do empreendimento econômico solidário com responsabilidade solidária.
Assim, a forma de organização dos empreendimentos econômicos solidários é por meio de cooperativas.
Solidariedade
A solidariedade deve permear todas as ações na Economia Solidária. Isso se concretiza por meio da inclusão de todas as pessoas nos benefícios do desenvolvimento, seja dos próprios empreendimentos econômicos solidários, do bairro, do território, da cidade, e assim sucessivamente.
Na prática da solidariedade há uma preocupação, orientação e prática ética a serviço da coletividade. Parte da compreensão de que os problemas que enfrentamos não são resultados de incapacidades individuais, mas de causas estruturais, o que resulta na articulação de esforços para superação das formas de destruição da vida e das dificuldades enfrentadas.
Desafios
Como política pública, a economia solidária ainda tem muitos desafios pela frente, porém esse movimento vem se consolidando como proposta viável para geração de trabalho e renda. No Brasil, bons exemplos vêm das incubadoras das universidades e ongs que têm conseguido realizar iniciativas coletivas de geração de trabalho e renda com o protagonismo dos trabalhadores em centros públicos de economia solidária, cooperativas de reciclagem, programas de micro-créditos aos empreendimentos, redes de troca e o fortalecimento do consumo ético e responsável.


Projeto Repensar a respeito da sustentabilidade local e o projeto Paz e Reflorestamento realizado todo dia 21 de setembro desde da criação da ong Assereco. .
**Quer saber mais sobre cidadania, responsabilidade social, sustentabilidade e terceiro setor? Fique conectado! Acesse nosso face..blog! Siga a Ong ASSERECO também no email assereco@gmail.com:

terça-feira, 24 de abril de 2012

Horizonte ético da Mobilização Social

O horizonte ético é aquilo que dá sentido a um processo de mobilização. Uma das formas como um país explicita seu horizonte ético, seu projeto de nação, é através de sua Constituição. Nela ele define seu projeto de futuro, suas escolhas. Quanto mais tiver sido participativo o processo de sua elaboração, mais estas escolhas refletirão a vontade de todos e serão por todos compartilhadas.

Compreensão do conceito de cidadania e dos princípios da Democracia

Os gregos se tornaram capazes de criar a democracia a partir do momento que descobriram que a ordem social não era ditada pelos deuses, mas construída pelos homens, quando vislumbraram a possibilidade de construir uma sociedade cujo destino não estivesse fora dela, mas nas mãos de todos os que dela participavam.

A democracia é uma ordem social que se caracteriza pelo fato de suas leis e suas normas serem construídas pelos mesmos que as vão cumprir e proteger. A democracia é uma ordem auto-fundada. Por isso, a democracia é uma cosmovisão, o que quer dizer que ela é uma forma de ver o mundo. Uma forma que aceita cada pessoa como fonte de criação de ordem social. A democracia não pode ser imposta, tem que ser quotidianamente construída. Ela é fruto da decisão de uma sociedade, que acredita que é possível criá-la, a partir de uma unidade de propósito e do respeito pelas diferenças. “Cidadão é a pessoa capaz de criar ou transformar, com outros, a ordem social e a quem cabe cumprir e proteger as leis que ele mesmo ajudou a criar.

Como se define a dignidade humana?
A dignidade humana tem uma definição básica, condensada entre os diversos países, expressa na Declaração Universal dos Direitos Humanos (10 de novembro de 1948). Ainda que não haja modelo ideal de democracia, toda ordem democrática está orientada a proteger e fortalecer os Direitos Humanos (fundamentais, políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais) e a proteger e desenvolver a vida.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos é o projeto de humanidade que nosso século concebeu e conseguiu condensar, uma de suas contribuições mais originais. Nos séculos passados, alguns países, como os Estados Unidos na sua Constituição (1787) e a França na Declaração dos Direitos do Cidadão (1789), haviam definido os direitos humanos, mas eram experiências, isoladas, de cada país. Nunca na História, um número tão grande de países foi capaz de atingir um consenso quanto à relevância e quanto ao conteúdo deste tema, como expresso nesta Declaração. Reúne direitos que possuímos simplesmente por sermos da espécie humana, anteriores a toda distinção, a toda ação cultural, econômica ou política, a toda característica étnica, etc.

Quando incorporamos aos direitos garantidos na nossa Constituição a íntegra da Declaração Universal dos Direitos Humanos (Título II – Dos Direitos Fundamentais, artigo 5º ) e declaramos a dignidade humana como um dos fundamentos de nossa nação e de nosso modelo de democracia nos comprometemos com a formulação de um projeto de desenvolvimento que não seja exclusivamente econômico, baseado nos Direitos Humanos e que contribua para transformá-los de projeto ético em um projeto público, de todos, em uma visão de mundo, um discurso, uma decisão e uma ação.

Democracia é uma decisão ética
A Democracia é como o Amor: não se pode comprar, não se pode decretar, não se pode propor. A Democracia só se pode viver e construir. Por isso ninguém pode nos dar a Democracia. A Democracia é uma decisão, que toma toda uma sociedade, de construir e viver uma ordem social onde os Direitos Humanos e a vida digna sejam possíveis para todos.A Democracia não é um partido político, não é uma ciência nem uma religião; a Democracia é uma forma de ver o mundo, é uma cosmovisão, que parte do suposto de que fazer possíveis e cotidianos os Direitos Humanos e uma vida digna para todos é o que justifica todas as atividades de uma sociedade (políticas, econômicas, culturais, financeiras, educativas, familiares, etc.).Em outras palavras, a Democracia é uma Ética.A Ética é a capacidade de criar e escolher uma forma de viver, que consiste em fazer possível a vida digna para todos. Por isso a Democracia é uma forma de construir a liberdade e a autonomia de uma sociedade, aceitando como seu fundamento a diversidade e a diferença.

A participação em um processo de mobilização social, é ao mesmo tempo meta e meio. Por isso, não podemos falar da participação apenas como pressuposto, como condição intrínseca e essencial de um processo de mobilização. Ela de fato o é. Mas ela cresce em abrangência e profundidade ao longo do processo, o que faz destas duas qualidades (abrangência e profundidade) um resultado desejado.Considerá-la como meta e meio significa: Considerar a participação como um valor democrático: Toda ordem social é construída pelos homens e mulheres que formam a sociedade.

A ordem social não é natural e cada sociedade é que constrói sua ordem social. Porque ela não é natural é possível falar em mudanças. Quando a sociedade começa a entender que é ela que constrói a ordem social, vai adquirindo a capacidade de auto-fundar a ordem social, de construir a ordem desejada, vai superando o fatalismo e percebendo a participação, a diferença e a deliberação de conflitos como recursos fundamentais para a construção da sociedade. A participação deixa de ser uma estratégia para converter-se em ação rotineira, essencial. Neste sentido, a participação é o modo de vida da democracia.
     
O conceito de Público
A América Latina e a América do Norte foram ambas conquistas religiosas, mas de conteúdos diferentes. Lá, chegaram fiéis, aqui chegou a Igreja, seus padres, e bispos. Lá chegaram cidadãos em busca de uma terra para viver, aqui chegou um governo em busca de riquezas para explorar. Lá chegou a sociedade civil, aqui chegara instituições; e a sociedade civil, fonte geradora do ‘público”, ainda está construindo. Por isso existe entre nós tanta confusão entre o que é do governo e o que é público. Por exemplo: a escola pública é a escola de todos e não a escola do governo, os espaços públicos são espaços de todos e não espaços do governo e assim por diante. O resultado da confusão que fazemos é ficarmos, muitas vezes, esperando que o governo cuido do que nós, coletivamento, deveríamos cuidar. Encaramos coisas e atitudes como dádivas e favores do governo, não como coisas públicas, conquistas e direitos à sociedade.

A construção do público a partir da sociedade civil exige o rompimento com essa tradição e o compromisso com uma nova atitude de responsabilidade, de desenvolvimento da capacidade de pensar e agir coletivamente e de respeito às diferenças. Para criar e formar cidadãos, quer dizer, pessoas capazes de criar e fundar com outros a ordem social desejável para todos. E empenharmo-nos para criar espaços para que a cidadania se exerça. O paternalismo político só é superável através de uma sociedade que tenha a possibilidade de construir suas instituições políticas a partir da sociedade civil. Isso significa passar de uma lógica social de adesão ao poder a uma lógica de deliberação e competição de interesses que, através do consenso e de acordos, define o que convém a todos. É assim que se constrói uma ordem democrática estável e o consenso legítimo.

Lidando com as dificuldades
Como romper com o fatalismo e a desesperança?
As maiores barreiras para que uma pessoa ou grupo se disponham a agir são o fatalismo e a desesperança. O fatalismo acaba gerando e, de certa forma, justificando um certo cinismo, uma vez que por causa dele aceitamos conviver com situações que condenamos. Por isso o seu antídoto é o apelo ao compromisso, ao comportamento e aos valores éticos das pessoas. Mostrar e conseguir que as pessoas vejam que existem situações com as quais não podemos conviver, em relação as quais não devemos ser tolerantes.

Quanto à desesperança, o remédio é trabalhar o conceito de cidadania. É ele que vai aumentar a segurança, despertar a capacidade empreendedora coletiva e fazer com que as pessoas se sintam poderosas para produzir mudanças. E aí é só começar, os primeiros resultados vão reforçar e ampliar este sentimento.
Como romper com o “costume com a ruindade”. “Talvez o mais trágico na sociedade brasileira atual não seja a existência da desigualdade, da miséria e da violência. O mais trágico é a naturalidade com que todos nós convivemos com esta realidade”, escreveu Margarida Vieira em artigo intitulado “A banalização do mal” (Estado de Minas, 25/09/95). Romper com este sentimento exige assumir o destino e a construção da ordem social. Aceitar que somos nós que a criamos, com nossas ações, nossas omissões e nossas permissões e delegações para que outros agissem por nós e por isso, podemos modificá-la.

Como começar quando o imaginário não está muito claro?
A resposta é começando. Tendo um horizonte, alguns princípios, clareza dos conceitos básicos e dos valores, o imaginário vai se configurando aos poucos. Existem algumas fontes: a Constituição, as músicas, a literatura e, principalmente muita conversa. O importante é tê-lo delineado, não necessariamente de maneira definitiva e precisa.

No caso, por exemplo, do Pacto de Minas pela Educação, um movimento a favor da educação, começou-se tendo como imaginário mudar uma situação indesejável, expressa com mais eloqüência nas altas taxas de evasão e repetência e no grande numero de crianças fora da escola. Ao informar estes dados e refletir sobre as suas conseqüências sobre a sociedade, seu impacto na auto-estima das crianças e no seu elevado custo econômico criava-se o sentimento de indignação e intolerância com a situação e a partir daí se construía, para cada município uma visão de futuro diferente, que começava com zerar o número de crianças fora da escola, depois a repetência até chegar ao debate sobre o futuro desejado e a educação necessária para construí-lo. A receita é atenção aos conceitos de democracia, cidadania e participação e coerência no cotidiano do movimento.
José Bernardo Toro
Extraído de: MOBILIZAÇÃO SOCIAL “Um modo de construir a democracia e a participação” José Bernardo Toro Nísia Maria Duarte Werneck.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Ecologia, a fraude do nosso tempo

O movimento ecológico constitui hoje um dos mais sérios obstáculos nas lutas sociais. Por João Bernardo


No artigo Agroecologia e a luta campesina: continuando o debate JG não retoma por sua conta as teses do artigo de Mix Será o camponês um mito? e desenvolve a argumentação num plano mais racional, como aliás já o havia feito num dos comentários ao meu artigo Sociedade urbana e industrial. Uma resposta. Não se trata portanto de continuar o debate, como JG pretende, mas de o recomeçar.
Mas será que a isto se pode chamar debate? Algumas das principais teses que defendi na série O mito da natureza nem sequer foram consideradas e o artigo de Mix falhou grande parte dos alvos. Na minha réplica ao artigo de Mix apresentei uma sequência de argumentos que na sua maioria não foram discutidos. Os leitores que usaram os comentários para tecer críticas à ecologia e à agroecologia também praticamente não tiveram respostas fundamentadas e um leitor que pacientemente indicou links para resenhas e artigos científicos que põem em causa os mitos da agroecologia e da alimentação chamada orgânica não viu nenhum desses links ser contestado.
Esta fuga ao debate não espanta. O presidente da Associação Brasileira de Agroecologia afirmou em Dezembro de 2011, no discurso de boas vindas ao VII Congresso Brasileiro de Agroecologia, que «em Ciência não há neutralidade. Os valores e a visão de mundo do pesquisador condicionam sua atividade, desde a decisão sobre o que pesquisar ou como e com quem formula suas perguntas de pesquisa. Ao pesquisarmos, o fazemos, consciente ou inconscientemente, a partir do desenho de uma sociedade que imaginamos estar contribuindo para construir. Logicamente, é uma decisão carregada de valores, de ideologia. É nesse sentido que é falsa a afirmação da neutralidade da ciência, mesmo quando ela tenta se amparar no argumento da “aplicação tecnológica inadequada” do conhecimento científico supostamente “gerado de forma adequada”». O presidente da Associação Brasileira de Agroecologia disse também «que a ciência é um campo em disputa e que a consolidação da Agroecologia representa uma revolução paradigmática. Pelo fato de estarmos desafiando velhos paradigmas, os que aderem a esta nova comunidade e a este novo campo passam a ser alvo de críticas e menosprezo nos ambientes em que a ciência convencional continua a ser praticada e no meio político ecotecnocrático que procura se legitimar com os conhecimentos produzidos naqueles espaços».
Não é por acaso que nesta hostilidade àquilo que o presidente da Associação Brasileira de Agroecologia classificou como «ciência normal» e «ciência convencional», um historiador encontra uma grande semelhança com os argumentos que levaram os seguidores de Hitler a defender a Física Ariana ou os seguidores de Stalin a defender a genética de Lyssenko. É certo que todas as noções, científicas ou outras, reflectem a época em que surgiram e o meio social que as originou, mas é um atroz simplismo pensar que assim se possa negar a validade de tudo com que não se esteja de acordo. A ciência fundamenta-se em experiências laboratoriais e numa eficácia prática que serve de confirmação às suas descobertas, e a alteração de paradigmas não invalida estas descobertas. Quando se passa de um modelo explicativo para outro os resultados científicos obtidos no modelo anterior não perdem a validade, mas são inseridos na nova estrutura, onde eventualmente são interpretados noutra perspectiva e podem suscitar novos desenvolvimentos. É assim que, pelo menos desde Galileu, se têm processado os avanços na ciência.
Mas a agroecologia coloca-se fora de qualquer debate científico ao considerar globalmente suspeitos os cientistas que se lhe opõem, precisamente pelo facto de se lhe oporem. Se «como e com quem» forem formuladas as «perguntas de pesquisa» pertencer a uma «visão de mundo» que não seja do agrado dos agroecologistas, eles rejeitam as perguntas, ou seja, fogem às questões inconvenientes. É a legitimação do charlatanismo. Vemos hoje proliferarem nas universidades departamentos dedicados à ecologia, pela simples razão de que os ecologistas são incapazes de defender as suas doutrinas nos departamentos comuns, perante os colegas cientistas. Nos seus departamentos próprios os ecologistas sentem-se protegidos — burocraticamente protegidos — e podem lançar-se na caça às bruxas contra o resto das universidades e dos institutos.
lygia-pape-2Desde há muitos anos que me interesso pela crítica à ecologia e tenho observado que a esmagadora maioria dos ecológicos é indiferente às lições da história económica e quando lhe fazem referência raramente conhecem o que tratam. Não espanta, porque a história económica põe em causa os mitos tradicionalistas e arcaizantes. O artigo de JG não constitui excepção, quando refere que a revolução do neolítico, que ele reduz ao «surgimento da agricultura em sua forma mais rudimentar», «possibilitou o crescimento exponencial da população humana e o estabelecimento das primeiras cidades, cujos moradores se dedicavam a outros empenhos que não produzir ou buscar sua comida, já que havia sobressalente».
lygia-clark-3Ora, o «crescimento exponencial da população humana» só foi tornado possível pelo capitalismo industrial, através de um duplo processo: a introdução de condições sanitárias nas cidades e a aplicação da industrialização à produção de alimentos. Se tomarmos como exemplo a Itália centro-setentrional no final da Idade Média, 95% da população habitava nas áreas rurais e 5% nas cidades, no máximo. E note-se que esta era a zona com maior concentração urbana na Europa da época. Além disso, é necessário saber que existia também nas cidades medievais uma população sazonalmente flutuante, que ia para o campo na época das grandes fainas e regressava à cidade para ganhar uns míseros tostões como serventes ou auxiliares no artesanato. Existia igualmente uma população residente na cidade mas que trabalhava nos campos das imediações. E as cidades não eram todas preenchidas por edifícios, encontrando-se hortas, pomares e outros terrenos agrícolas dentro das muralhas. Só o capitalismo industrial permitiu inverter aquela relação para 5% de rurais e 95% de urbanos; e hoje, nos países que além de serem os mais industrializados são também grandes produtores de alimentos, a percentagem de força de trabalho dedicada à agricultura é mais baixa ainda. A industrialização da produção agrícola e a aplicação da ciência química — agora também da biologia e da genética — à agricultura permitiu que um número diminuto de trabalhadores produzisse alimentos suficientes para uma população cada vez mais abundante, que pôde dedicar-se a outras actividades. Criou-se assim a sociedade urbana e industrial e ampliaram-se enormemente os horizontes da humanidade.
Mas os ecológicos vêem com muito maus olhos a aplicação da química à agricultura e bradam contra aquilo a que chamam agrotóxicos e venenos. Parecem ignorar que os mesmos laboratórios científicos que criaram as substâncias químicas da agricultura industrializada observam os seus efeitos nos seres vivos e no ambiente e continuamente as modificam ou criam outras novas, mais eficazes, que eliminam ou reduzem os efeitos nocivos. E isto ocorre não contra o capitalismo nem fora do capitalismo, mas dentro do âmbito da R&D financiada ou orientada pelo capital. É curioso que o facto de o próprio capitalismo detectar o carácter nocivo de muitos produtos, proibir ou restringir a sua utilização e os remodelar não leva os ecológicos a concluir que o capitalismo dispõe de alguns mecanismos auto-reguladores eficazes.
Com o progresso da ciência vai-se descobrindo que são tóxicas coisas que antes se julgava que não eram, e isto sucede tanto para a sociedade urbana moderna como para a rural arcaica. Sabe-se hoje que panelas de cobre e louça de barro vidrado, por exemplo, que foram durante alguns séculos artefactos comuns na Europa, são muitíssimo prejudiciais à saúde, no caso das panelas pela ingestão do metal e no caso da louça devido às rachas abertas no vidrado. Igualmente nocivos são os talheres e pratos de madeira, que constituíram a única baixela dos camponeses europeus ao longo de muitos séculos. Foram necessários os laboratórios científicos para chegar a estas conclusões.
Os ecológicos são incapazes de demonstrar que os chamados agrotóxicos envenenam a população. JG invoca a este respeito a distinção entre coeficiente de correlação e relação causal, bem conhecida de qualquer aluno de graduação em Economia, mas este aspecto metodológico em nada sustenta as pretensões dos ecológicos, pois seria impossível que a população mundial ingerisse doses crescentes de venenos e apesar disto se multiplicasse e a sua esperança de vida não deixasse de se prolongar. Aliás, quanto à forma incriteriosa como os ecológicos usam as estatísticas remeto para o livro indispensável de Bjørn Lomborg, The Skeptical Environmentalist. Measuring the Real State of the World (Cambridge: Cambridge University Press, 2001), do qual creio que existe uma tradução no Brasil.
terry-haggerty-3Na crítica ao que consideram agrotóxicos, os ecológicos confundem ainda os eventuais efeitos dessas substâncias nos alimentos com o efeito que certos produtos químicos usados na agricultura industrializada podem provocar nos trabalhadores. Mas esta é uma questão que se insere na rubrica dos acidentes de trabalho, extensiva a todos os ramos de produção no capitalismo. Só a luta organizada dos trabalhadores, dentro das empresas, criando comissões de fiscalização, e no âmbito social mais vasto, impondo uma legislação de garantias e seguros de acidentes de trabalho, pode fazer com que as administrações das empresas sofram mais prejuízos deixando adoecer e morrer os trabalhadores do que poupando-lhes a saúde. Este não é um problema específico da agricultura industrializada e sim um problema genérico de todo o capitalismo. Os ecológicos, no entanto, pouco reflectem sobre os acidentes de trabalho na indústria e nos serviços, já que pouco se preocupam com a organização do trabalho nesses ramos.
Fazendo de conta que não leu os comentários de Ronan e de Manolo ao artigo de Mix, onde estão descritas as condições de vida no campo por pessoas que as viveram — ou talvez não os tivesse lido mesmo — JG lamenta que «nós citadinos também perdemos algumas coisas ao não estarmos próximos à natureza e afastados de algumas condições das grandes cidades», e indica exemplos típicos de alguém em férias que vai tomar banho na cachoeira enquanto ouve cantar os passarinhos. A candura de JG não tem limites quando narra: «Lembro-me de uma família de militantes do MAB [Movimento dos Atingidos por Barragens] que me hospedou em um estágio de vivência. Os pais haviam lutado por vários anos em ocupações para pressionar o governo a reassentá-los após sua terra ter sido inundada na construção de uma hidrelétrica e eles conquistaram um assentamento onde levavam uma vida que me parecia bastante agradável. Seus filhos, porém, tinham como sonho ir viver na cidade; soube recentemente que o filho mais velho se mudou para tentar ser jogador de futebol. A situação é comum nos movimentos da Via Campesina, que busca evitar que todos os jovens abandonem o campo, sendo a própria militância um dos fatores para a permanência de muitos».
Os «estágios de vivência» são uma forma de turismo ecológico que só se distingue daquele que é organizado por certas firmas turísticas francesas pelo facto de evocar o pretexto da militância, embora talvez nem sequer por isto, já que também essas firmas recorrem à ideologia para angariar clientes. E JG, o mesmo que gosta dos banhos de cachoeira e do canto das avezinhas e que acha «bastante agradável» a vida no assentamento, não extrai a lição de um facto elementar, o de os jovens desses assentamentos terem «como sonho ir viver na cidade».
bridget-riley-1Ora, esse sonho é tão forte que a Via Campesina «busca evitar que todos os jovens abandonem o campo». A respeito deste desejo de inverter o fluxo demográfico, que deixaria de se dirigir para as cidades e passaria a dirigir-se para o campo, eu tenho aconselhado os ecológicos — sem qualquer êxito — a estudarem a experiência dos Khmers Vermelhos no Cambodja. Acrescento agora que também é elucidativa a experiência do governo de Ceauşescu na Roménia. Só nestes termos comparativos é que podem medir-se as utopias à luz das realidades e avaliar as implicações da proposta de fixação rural apresentada pela Via Campesina.
Fico perplexo quando JG restringe a agricultura industrial à produção de cereais e de matérias-primas não alimentares e afirma: «Aqueles que porventura gostem ou achem importante comer a diversidade de frutas, verduras e legumes existentes, necessitam hoje da agricultura familiar». Será que realmente JG desconhece a industrialização operada nestes ramos através do uso de agentes químicos, de novos sistemas de irrigação, de enormes estufas e de modificações genéticas? Será possível que o ignore? Essa industrialização conseguiu conferir uma tão alta produtividade à produção de frutas, legumes e verduras que elas podem ser exportadas de um para outro lado do mundo com preços tão competitivos que liquidam as produções familiares autóctones.
Pressionada por um lado pela industrialização da produção agrícola nas culturas extensivas e pressionada por outro lado pela industrialização das culturas intensivas de frutas, legumes e verduras, a agricultura familiar só consegue subsistir em condições de mais-valia absoluta. Tal como sucede nas demais modalidades de economia doméstica, na agricultura familiar os membros da família não contabilizam o seu próprio esforço como custo, fornecendo assim um montante colossal de horas de trabalho gratuitas. Acerca deste assunto, remeto para o meu livro Economia dos Conflitos Sociais. Não o tenho agora comigo nem na edição Cortez nem na edição Expressão Popular, mas na versão que se encontra facilmente na internet as passagens relevantes estão sobretudo nas págs. 117-121 e 132-138. É nestes termos que eu apresento o aspecto económico da questão, e quem estiver interessado em criticar-me sabendo o que critica deve ler aquelas páginas. Se for só para me insultar, é desnecessário ler o que quer que seja.
A escassa produtividade da agricultura familiar é ingenuamente confirmada por JG quando indica, referindo-se ao Brasil, que «embora ocupe apenas 24,3% da área utilizada na agricultura, […] ela emprega mais de 70% dos trabalhadores rurais». Pois é, muita gente activa em pouco espaço é o que se chama fraca produtividade. Mas vejamos os números com maior detalhe.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, o Censo Agropecuário de 2006 avaliou, em quilogramas por hectare, a produtividade nos estabelecimentos familiares e não familiares, conforme consta da tabela seguinte.
ProdutoFamiliar (A)Não Familiar (B)B/A
Feijões (preto, cor e fradinho)6181.1511,86
Arroz2.7415.0301,84
Milho3.0294.3031,42
Cafés (arábica e robusta)1.1791.5821,34
Mandioca5.7707.5411,31
Trigo1.4801.8221,23
Soja2.3652.6511,12
Fonte: Caio Galvão de França, Mauro Eduardo Del Grossi e Vicente P. M. de Azevedo Marques, O Censo Agropecuário 2006 e a Agricultura Familiar no Brasil, pág.20.
Depois vêm dizer-me que a agricultura familiar é produtiva! E menos produtiva ainda é se a questão for avaliada, como deve ser, em função do número de trabalhadores. O Censo Agropecuário de 2006 revelou que no Brasil os estabelecimentos de agricultura familiar representavam 84,4% do total e preenchiam 24,3% da área dos estabelecimentos agropecuários, significando isto que 74,4% da força de trabalho ocupada na agropecuária laborava em estabelecimentos familiares. Ou seja, 3/4 da mão-de-obra laborava em 1/4 da área trabalhada. Ainda de acordo com o referido Censo, no Brasil existiam em média 6,2 pessoas ocupadas por cada 100 hectares de terra aproveitável para lavoura e pecuária; ora, nos estabelecimentos familiares esta média subia para 17,9 pessoas por 100 hectares, enquanto se reduzia a 2,1 pessoas por 100 hectares nos estabelecimentos não familiares.
terry-haggerty-2Tudo isto indica a baixa produtividade da agricultura familiar, tanto medida em volume de produto por área como em número de trabalhadores por área. Precisamente porque se trata de uma modalidade pouco produtiva é que a agricultura familiar requer um grande número de horas de trabalho. Segundo o Censo Agropecuário de 2006, do total de pessoas ocupadas neste tipo de agricultura, 89,4% tinham laços de parentesco com o cabeça de exploração; e como em todas as formas de economia doméstica os membros da família não contabilizam o seu próprio trabalho como um custo, o número médio de horas de trabalho por pessoa activa na agricultura familiar é necessariamente superior ao da agricultura não familiar. O referido Censo fornece a este respeito uma indicação muito significativa, ao revelar que 7,4% da força de trabalho ocupada nos estabelecimentos familiares era composta por crianças e adolescentes, enquanto nos estabelecimentos não familiares essa percentagem se reduzia a 3,6%. São estas as consequências da baixa produtividade da agricultura familiar e é num mundo assim que a Via Campesina «busca evitar que todos os jovens abandonem o campo». Uma proposta sinistra.
lygia-pape-1No capitalismo, a elevada produtividade cria as condições da mais-valia relativa e a baixa produtividade impõe a mais-valia absoluta. Nesta situação, a apologia da agricultura familiar não é mais do que um biombo idílico destinado a disfarçar a forma mais brutal de exploração, a mais-valia absoluta.
Poderia ser — embora mais sob o ponto de vista dos ideólogos do que de quem anda com a enxada nas mãos — que, apesar de tudo, valesse a pena trabalhar mais horas porque assim se fugiria aos ditames de um patrão, aplicando, nas palavras de JG, «métodos e práticas gestadas pelos trabalhadores». Mas na agricultura familiar não são as famílias camponesas quem controla o quê e como planta, nem quem controla as extenuantes horas de trabalho que não são contabilizadas como custos, nem quem controla o trabalho infantil e as condições miseráveis de vida. São as oscilações do mercado, que requerem certos produtos mais do que outros e que impõem os preços de venda. Um trabalhador do agronegócio depende das ordens do patrão. Uma família camponesa, por mais agroecológica que seja, depende dos imperativos do mercado. Por isso os jovens rurais têm «como sonho ir viver na cidade», o que significa que têm como sonho fugir da mais-valia absoluta e ser explorados pela mais-valia relativa. Não estão dispostos a servir de cobaias para as doutrinas ecológicas.
«O que se espera do ambientalismo pela esquerda é necessariamente tomar o ponto de vista dos trabalhadores», escreve JG. Mas, curiosamente, logo em seguida ele considera os trabalhadores apenas como consumidores — consumidores negativos, neste caso — ou seja, considera os que sofrem ou eventualmente sofrem a acção exterior de certas empresas, mas não os trabalhadores no interior das empresas. Eu observei num dos comentários a Sociedade urbana e industrial. Uma resposta: «É elucidativo verificar que o movimento ecológico se limita a protestar contra a poluição que as empresas provocam no exterior e esquece as condições sofridas pelos trabalhadores durante o processo de trabalho. […] Os ecologistas, que sistematicamente adoptam a perspectiva do consumidor, pretendem mobilizar populações exteriores às empresas, residentes nas imediações. Se essas pressões tiverem êxito, os custos delas decorrentes serão absorvidos pelo preço de venda do produto; e se este preço ultrapassar um dado nível, ele provocará uma restrição do mercado, reduzindo portanto, ou eliminando, o interesse da empresa por aquele tipo de actividade. Perante este agravamento dos custos exteriores de produção, resta à empresa um único recurso, que é a diminuição dos custos internos de produção, ou seja, o agravamento da exploração da força de trabalho. Mas as boas-almas ecologistas esquecem-se sempre deste aspecto, porque as empresas só as incomodam dos muros para fora e nunca dos muros para dentro».
tadasuke-kuwayama-2No século XVIII difundiu-se uma forma de jardim, que na arquitectura paisagística tem o nome técnico de jardim inglês, e que consistia em aumentar os contrastes e o dramatismo dos maciços de árvores, dos relevos e dos cursos de água, de maneira a tornar a natureza ainda mais natural, ornamentando-a também aqui e acolá com falsas grutas e ruínas apócrifas. Na Inglaterra dessa época, o reverendo William Mason, poeta e amante de jardins, sugeriu aos donos das terras que vestissem de andrajos graciosos os filhos das famílias miseráveis e os deixassem à solta entre as colinas e os riachos, as grutas e as ruínas. E na França burguesa de Bonaparte, o arquitecto Jean-Charles Krafft propôs que um ou outro casal de camponeses idosos, depois de uma vida de labuta ao serviço do proprietário, fossem alojados «numa choupana de estilo polaco», o que não deixaria de embelezar o jardim com mais «um efeito pitoresco» [*]. Os mesmos capitalistas que haviam proletarizado os campos e convertido o artesanato em manufacturas fabris povoavam os seus lazeres com falsas recordações vivas de uma sociedade rural idílica que, se alguma vez houvesse existido, teriam sido eles os primeiros a aniquilar. É o que faz hoje a tecnocracia ecológica, que aprende nos respectivos departamentos universitários a adornar a paisagem rural com famílias de agricultores pitorescos.
O que escrevi aqui e noutros lugares deixa claro que a minha oposição ao movimento ecológico, e neste caso específico à agroecologia, não é parcial mas total. No plano civilizacional sou hostil ao movimento ecológico, porque representa uma ameaça à sociedade urbana e industrial, que pela primeira vez na história oferece à humanidade uma possível libertação do reino da necessidade. No plano intelectual sou hostil ao movimento ecológico, porque volta costas à racionalidade científica e se encerra nos seus próprios artigos de fé. No plano estético sou hostil ao movimento ecológico, porque desde as performances e instalações de Beuys até às criações dos seus epígonos de hoje tem agravado os impasses do conceptualismo. No plano económico sou hostil ao movimento ecológico, porque todas as medidas que propõe levam, directa ou indirectamente, ao agravamento da mais-valia absoluta. No plano político sou hostil ao movimento ecológico, porque implica o policiamento exercido sobre a natureza por uma tecnocracia cooptada.
As ideias e a política da extrema-direita só se tornam realmente ameaçadoras quando começam a penetrar na esquerda; foi o que sucedeu com o fascismo na época entre as duas guerras mundiais. E o charlatanismo só se torna preocupante quando começa a ser adoptado como ideologia em amplos meios sociais; foi o que sucedeu com a eugenia na primeira metade do século XX e com o nacional-socialismo na Alemanha e na Áustria. Ambos estes processos convergiram na ecologia. Num livro publicado há quase trinta e cinco anos eu chamei ao movimento ecológico inimigo oculto, pela sua capacidade de adoptar a linguagem e as maneiras da esquerda para prosseguir um programa de direita. O problema agravou-se ao longo do tempo e, pela difusão capilar que conseguiu e pelo travesti com que se apresenta, o movimento ecológico constitui hoje um dos mais sérios obstáculos nas lutas sociais.
Nota
[*] Citado em Sophie Le Ménahèze, L’Invention du Jardin Romantique, Neuilly-sur-Seine: Spiralinthe, 2001, pág. 458.
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Ilustrações: de cima para baixo, obras de Hartmut Böhm, Lygia Pape, Lygia Clark, Terry Haggerty, Bridget Riley, Terry Haggerty, Lygia Pape e duas de Tadasuke Kuwayama. A ilustração da janela de destaque é de Julian Stañczak.

sábado, 14 de abril de 2012

POLÍTICA DA POBREZA!!

Em suas linhas mais gerais, a estrutura social de um país é dada pela sua estrutura demográfica, sua ocupação, a distribuição da riqueza entre seus habitantes, e sua distribuição espacial e geográfica. Entram neste grande painel, além disto, a existência de divisões de natureza étnica e cultural, e o que se pode denominar de “capital humano”, a educação. A sociedade brasileira vem se transformando rapidamente ao longo das últimas décadas, a tal ponto que a agenda social muitas vezes e é superada pelos fatos. 
O exemplo mais claro destas transformações é a mudança nas taxas de fecundidade, que afeta diretamente o crescimento e as características mais gerais da população. Entre 1950 e 1980, o Brasil cresceu a uma taxa média anual de 2.8%, o que significa que a população dobrava a cada 25 anos. Em 2000, esta taxa estava estimada em 1.33, o que significa uma duplicação a cada 55 anos. Como esta taxa vem caindo, a expectativa é que, por volta de 2020, a população brasileira já tenha parado de crescer, e começado a se reduzir. No passado, políticas de controle da natalidade eram proclamadas como essenciais para resolver os problemas sociais do país, e ainda hoje ainda existe quem defenda este ponto de vista, já totalmente ultrapassado pelos fatos. A redução da fecundidade da população não foi o resultado de nenhuma política governamental deliberada, mas a conseqüência de uma série de fatores que incluem o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, a mudança da população do campo para as cidades, o aumento da educação, o aumento da informação e da disponibilidade de meios contraceptivos, e a mudança nos valores e na cultura da população. 
O impacto desta transformação é enorme. Por um lado, o Brasil começa a deixar de ter os problemas de um “país jovem”, que precisa abrir cada vez mais escolas, criar cada vez mais empregos, e construir mais casas para uma população em constante crescimento; e começa a ter os problemas de um país adulto, que começa a envelhecer. O impacto sobre a educação é o mais visível: até recentemente, ainda se insistia na prioridade em abrir cada vez mais escolas; hoje, como que de repente, a cobertura escolar no primeiro grau já é de quase 100%, e muitos estados começam a confrontar o problema de salas vazias. A redução da pressão sobre o mercado de trabalho vai se fazer sentir com mais força nos próximos anos, quando o tamanho das novas gerações buscando emprego começar se tornar menor a cada ano.  Com uma população jovem cada vez menor, e uma população mais velha ainda relativamente reduzida, a taxa de dependência da população (ou seja, o número de crianças e velhos que cada adulto deve sustentar) se reduz cada vez mais, fazendo com que as gerações jovens tenham a oportunidade de investir mais em si mesmas, e poupar para o futuro. É uma janela de oportunidade que irá desaparecendo, na medida em que a população envelheça, aumentando a carga de dependência das novas gerações. O envelhecimento da população coloca na ordem do dia os problemas dos custos crescentes das aposentadorias, as necessidades de atendimento médico, cada vez mais caro, dos idosos, e toda a questão social do amparo à velhice, que até recentemente não fazia parte da preocupação dos brasileiros. 

A outra transformação dramática ocorrida no Brasil nos últimos anos foi a transição da população do campo para as cidades.  Para muitos, o Brasil ainda é visto como um país predominantemente rural, dominado pela política, economia e cultura do interior. Os entusiastas da reforma agrária ainda pensam que o futuro do Brasil depende de uma revolução no campo, como se pensava cinqüenta anos atrás. No entanto, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE de 1992 já mostrava que apenas 22% da população do país vivia em área rural; em 2001, esta percentagem havia caído para 16%.  Em termos de ocupação, 20.6% da população ativa do país se dedicava a atividades rurais, muitos vivendo em regiões urbanas e trabalhando como assalariados, e não camponeses de tipo tradicional; enquanto outros, embora vivendo em zonas rurais, se dedicavam a atividades de prestação de serviços, comércio de mercadorias, e outras. 
Estas transformações vieram acompanhadas de mudanças também muito significativas na maneira pela qual a vida familiar e social se organiza. Já em 1992, 22% dos domicílios brasileiros eram chefiados por mulheres: em 2001, este número havia aumentado para 27.3%[2]. O número médio de filhos por domicílio em 1992 era 1.9; em 2001, havia caído para 1.1. Em 1992, 28% dos chefes de família não tinham cônjuge; em 2001, este número havia subido para 33%, um quarto do total.[3] A família tradicional, portanto, formada por um homem responsável pelo sustento, por uma mulher dona de casa, e vários filhos, vem perdendo lugar, e sendo substituída por diferentes tipos de arranjos – pessoas que vivem sós, mulheres chefes de família, casais sem filhos, pais sem mulheres.  Se a família tradicional era, como sempre se pensou, o lugar de formação e apoio para o desenvolvimento físico, cultural, moral e mental das crianças, esta função se vê cada vez mais ameaçada, criando novos problemas que até recentemente não eram parte da agenda de preocupações.    
Ao final do milênio, generalizou-se a idéia de que, por causa da globalização e das políticas de estabilização econômica, as condições de vida da população brasileira haviam se deteriorado. Na verdade, os dados mostram que, apesar do pouco desenvolvimento econômico que houve no período, houve melhorias significativas. O rendimento médio da população brasileira aumentou entre 1992 e 1999, segundo os dados das PNADs, para a população como um todo e para diferentes grupos sociais.  A desigualdade, expressa tanto pela relação entre os grupos de renda alta e baixa quanto pelo índice Gini, mostra uma pequena diminuição, mas se manteve alta durante a década. 
Apesar da pequena melhoria, o avanço foi claramente insatisfatório, especialmente para a população de menor renda. A desigualdade de renda no Brasil é considerada uma das mais altas do mundo, evocando a imagem de um país dividido entre uma pequena elite de altos rendimentos e uma grande população vivendo miseravelmente. Esta interpretação não é correta, porque os dados se referem a diferenças de rendimento monetário, e não riqueza enquanto tal. Eles excluem, assim, tanto as transferências e os rendimentos não monetários, que podem ser significativos para as famílias mais pobres, sobretudo na área rural, quanto os recursos provenientes da riqueza acumulada, que podem ser importantes para os mais ricos. Estudos econométricos mostram que, dos diversos fatores que afetam a renda - região, idade, sexo, raça, tipo de ocupação, educação, etc - o mais importante, de longe, é a educação[4]. Em 2001, o rendimento mensal médio de quem tinha educação superior era cerca de 2.200 reais - um bom salário de classe média, mas longe de indicar riqueza - enquanto que o rendimento médio de quem não tinha educação era dez vezes menor. A implicação deste fato é que o caminho mais importante para uma melhor distribuição da renda é o aumento e a melhor distribuição das oportunidades educacionais, e não a redistribuição da riqueza. FONTE: 
http://www.schwartzman.org.br/simon/causasp_files/causasp8.htm

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Ecologia


Ecologia não é palavra complicada. Quer dizer, em grego: "estudo da casa". Não só da nossa casa, onde moramos, mas a "casa de todos": o mundo. Porque todos vivemos dependendo uns dos outros.


Assim, Ecologia quer dizer: estudo do mundo. Por que estudo do mundo? Como anda o mundo, como ele se formou e como está se comportando, nos dias atuais.
Porque tudo o que fazemos ou aquilo com que mexemos tem de ser estudado, pesquisado, e por fim respeitado.
Ecologia estuda, ainda, tudo que acontece com o clima dos países, produção, trabalho, moradia, qualidade de vida etc. A ecologia quer que o mundo seja consertado, para que não se derrubem as florestas, não se acabem os animais, os pássaros, as baleias...
Não se deve desmatar, as árvores ajudam a limpar o ar, tirando gases que estão circulando devido à veículos (automóveis, caminhões, tratores, aviões) e indústrias.
Os animais vivem, geralmente, dentro da mata, onde se acham quantidades apreciáveis de árvores de todos os tipos, além de vegetação rasteira, flores, gramas, capins. Qualquer animal deve ser preservado, deve viver em seu próprio lar, que é a floresta.
Apanhar animais ou pássaros, para mantê-los em jaulas e gaiolas é um grande ato de maldade; existem animais criados em cativeiro que já não podem viver em liberdade. Se fossem todos libertados, morreriam de fome, pois já não sabem procurar comida.
Com o aumento da população, novos inventos foram aparecendo. A pequena produção teve de sofrer modificações, para atender o consumo. A geladeira é um desses inventos atrapalhados, pois os gases utilizados em seu equipamento (clorofluorcarbono) é que estão destruindo a camada de ozônio do planeta.
O que precisamos é pensar seriamente nas coisas que estamos fazendo; se elas estão de fato sendo úteis para a humanidade, ou estamos apenas juntando mais lixo sobre a terra, perturbando a cabeça dos povos, ou destruindo as bases de nossa civilização.
Para ver a lista dos animais em extinção, clique aqui.
Curiosidades:
·         Todo produto químico acaba indo para os rios e acaba envenenando os rios, matando os peixes e estragando a água, que é bebida por homens e animais.
·         Não se pode plantar de qualquer maneira, existe estudo para cuidar do solo.
·         Os inseticidas podem envenenar o ambiente, ou seja, o ar que nós respiramos e causar muitas doenças.
·         Você sabia que a gralha azul planta os pinheiros? Ela transporta o pinhão no bico e o deixa em qualquer lugar, fazendo, assim, o plantio.
·         Quando as abelhas procuram flores de cereais plantadas, para fazer a polinização, acabam ingerindo inseticida e morrem.
·         Não se deve desmatar, pois isso implica em mexer no clima e no solo.
·         As cidades com poucas árvores ficam muito quentes e as chuvas caem de forma desorganizada, causando inundações, que destroem casas e matam pessoas.